segunda-feira, 21 de março de 2022

CONTRA UMA CULTURA DE CONSUMISMO NAS IGREJAS

Por Rafael Gomes

Ao contrário do que alguns possam pensar ao lerem o título desta postagem, não venho condenar o consumo do cotidiano, ou o capitalismo, nem fomentar qualquer outra discussão no âmbito da economia ou da sociedade em geral. Meu intuito é tratar a respeito do consumismo como um movimento que, basicamente, é constituído pela prática do consumo de produtos, programações e estruturas oferecidos no âmbito das igrejas a todos aqueles disponíveis no "mercado" evangélico.

Minha intensão é trazer uma breve análise a respeito do comportamento consumista que influencia, direciona e define como, onde e quando os cristãos servem (ou intencionam servir) ao seu Deus.

OFERTA x DEMANDA

Essa lei de mercado aponta que a oferta existe para atender a uma demanda específica. Nesse caso, temos visto muitas igrejas buscando atender às diversas demandas concernentes à vida do cristão pós-moderno. Muitas oferecem uma gama de programações, voltadas para os mais variados públicos, a fim de atender às necessidades de todas as idades. 

Além disso, é possível percerber o conforto dos salões de culto, contando com cadeiras confortáveis, ambientes climatizados, iluminação especial e diversas equipes de trabalho à disposição dessas igrejas. Temos uma demanda por música de qualidade, boas estruturas para atenderem aos filhos dos crentes, bons preletores (em alguns meios já não se usa o termo pregador ou pastor), belas instalações que atendam aos visitantes, etc.

Como pastor de uma igreja de porte numérico pequeno pude ouvir, por diversas vezes, que o fator que mais pesava na decisão da "escolha pela igreja ideal" é que esta deveria possuir uma boa estrutura de trabalho com crianças, para que os filhos não ficassem sem o bom ensino da Palavra de Deus.

Em outras conversas já tive a oportunidade de ouvir elogios a determinadas igrejas que ofereciam ao público diversas opções de classes de Escola Bíblica, segmentando e alcançando audiências mais específicas. Isso é realmente muito bom, e acredito que seja o sonho de muitos pastores, ou seja, ver a Palavra sendo ensinada a crianças, adolescentes, jovens, adultos; todos aprendendo dentro da sua realidade etária, com uma linguagem mais relevante àquele tipo de público.

Todas essas (e muitas outras) são demandas genuínas desse tempo. E se há demanda, certamente haverá alguém disposto a supri-la.

A DEMANDA DO REINO

Certa vez, Jesus disse aos discípulos: "Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara" (Mateus 9:38). Ele mesmo constatara que a seara é grande, mas poucos são os trabalhadores (v.37). O Mestre estava mostrando aos discípulos que o Reino de Deus apresenta uma demanda, e ela é grandiosa! Mas quem estará disposto a supri-la?

Enquanto muitas igrejas estão envolvidas com o atendimento das demandas populares, e enquanto muitos cristãos se preocupam em achar boas ofertas que os atendam, o Reino de Deus urge por trabalhadores, e não por consumidores.

Ao olharmos para o cenário evangélico atual, conseguimos identificar muitas igrejas com excelentes estruturas e serviços, mas também visualizamos um número bem maior de igrejas carentes em todas as áreas imagináveis. Constatamos pastores que contam com equipes ministeriais numerosas, times pastorais repletos de ministros auxiliares e seminaristas; por outro lado, temos um "sem número" de outras congregações, com ministros solitários, carecendo de apoio no serviço do Reino. Se por um lado temos estruturas faraônicas, com telões de LED, diversas equipes de louvor e equipamentos de última geração, por outro, temos irmãos se preocupando com a conta de luz e de água das sedes de suas igrejas.

Há uma grande necessidade a ser atendida, e ela não está ligada às suas demandas particulares, e sim às demandas do Reino de Deus. Não que seja um problema congregar em uma "grande" igreja. Mas estar ali por interesse, buscando por serviços que ela presta a você e à sua família, já é um sinal que deveria alarmar no seu coração. Isso porque a seara requer trabalhadores, e não consumidores. 

CONSUMIDORES x TRABALHADORES

É claro que uma igreja bem estruturada, capaz de atender às necessidades dos crentes que ali congregam, bem como da comunidade em que está inserida, é desejável por muitos. No entanto, duas perguntas que persistem em minha mente, são: Como as igrejas menores poderão se desenvolver se não houver quem trabalhe por isso? Ou ainda: há que demandas devemos nos preocupar em atender: às do Reino, ou às demandas de consumo?

Quando estamos falando de crentes consumidores, certamente não estamos falando em igrejas "pequenas". Definitivamente, esse não é o tipo de público que congrega nessas congregações menores. Como eu disse logo acima, esse tipo de cristão está buscando o melhor atendimento para a sua demanda, e por isso, precisará da melhor estrutura. Por esse motivo, igrejas "pequenas" não atraem consumidores.

O caminho então é o de orientar esses irmãos a um novo entendimento, e este entendimento dever ser o de que as demandas do Reino são maiores e mais importantes que as nossas próprias.

A nível de exemplo, uma EBD de qualidade, com um material de profundidade e professores imbuídos de fato e de verdade, é mais importante do que as salas com ar-condicionado, projetores e cadeiras acolchoadas. O grande problema é que consumidores estão mais preocupados com a qualidade das salas do que com a própria EBD, e esperam ser "bem atendidos" nessa questão. 

Eles precisam compreender que a demanda deles, frente à do Reino é menor em relevância. Precisam compreender que a qualidade das salas não deveria ser o parâmetro, mas a qualidade do conteúdo; precisam entender (serem instruídos nessa direção) que eles também precisam exercer a mordomia, e não apenas servirem-se dela (Mateus 20.28).

O CONCEITO INVERTIDO

Quando olhamos para as multidões que cercavam Jesus, as mesmas que gritaram "crucifica-o", vemos pessoas interessadas nos sinais e milagres realizados por Ele, mas não no sentido de crerem em Sua divindade como Filho de Deus, e sim no sentido de consumidores. Ele mesmo afirmou que aquelas pessoas o buscavam porque comeram pão e foram saciadas (João 6.26).

Entendemos com isso que a realidade dos poucos trabalhadores é persistente desde os tempos bíblicos. É muito mais fácil encontrarmos consumidores, e não ceifeiros. Reconheço que isso ocorre em qualquer tipo de igreja, seja ela pequena ou grande, numericamente falando. No entanto, minha crítica reside no fato de que o número de igrejas dispostas a servirem a seus públicos é uma crescente e, neste movimento temos então uma perversão dos valores bíblicos.

A Igreja deve se preocupar com a proclamação do evangelho, com a promoção da santidade no meio do povo de Deus, com a plantação de novas igrejas, com a expansão do Reino de Deus e seus valores, pregando a Cristo ressurreto, anunciando o fim desta era e o advento do Filho de Deus, para julgar o mundo. No cumprimento desta missão, a preocupação com boas estruturas deve ocupar lugar secundário.

Estimular o mercado preocupando-se em atender a consumidores de igrejas é um erro e uma perversão da missão da Igreja. Buscar e clamar por novos trabalhadores para o Reino é um dever de todos os crentes.

Por fim, gostaria de incentivar a você, que chegou até aqui e que está em busca de uma igreja na qual congregar, a usar outros parâmetros nessa procura. Acima de tudo estão a oração e a leitura da Palavra como bússolas para a sua procura. Em segundo lugar, busque por igrejas em que você e sua família possam servir a Deus, manifestando seus dons e talentos com zelo e alegria. Há uma miríade de congregações carecendo de apoio, nas mais diversas áreas; há muitos obreiros sobrecarregados sem terem com quem contar. Se não há uma estrutura para crianças, por que não começar esse trabalho? Se não há um grupo de adolescentes ou jovens, por que não colocar-se à disposição do Reino para esta missão?

O Espírito Santo distribuiu dons no meio dos crentes, de maneira que todos eles têm pelo menos um dom espiritual. Coloque-se então à disposição para o serviço do Reino, e empreenda com amor e com alegria na obra do Senhor.


Que o Senhor nos ajude nessa missão, em nome de Jesus!

5 comentários:

  1. Devemos trabalhar por amor a obra e não por interesse próprio.

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  2. Perfeito. Esse é o espírito da mordomia cristã. Somos chamados para servir, como Cristo nos ensinou.

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  3. Cristo nos chamou para servir! E conforme amadurecemos a nossa espiritualidade, atraves da leitura das Escrituras e de uma vida de oração,compreendemos isso mais claramente.

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    1. Exatamente isso. Precisamos olhar para as nossas vidas como instrumentos nas mãos de Deus. E instrumentos devem servir a um propósito específico, não é verdade? Que Deus nos conceda mais trabalhadores e cooperadores da Sua obra!

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  4. Muitos são os que esfriaram as sua fé ,desviando o povo da verdade escrita que diz!daí de graça o que de graça recebeste

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