quarta-feira, 8 de abril de 2020

A VERDADE, O REI E O LADRÃO

Por Pr. Rafael Gomes

Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (João 18.37)

Por ocasião da Páscoa, gostaria de propor uma breve reflexão sobre a verdade a respeito do reino vindouro, a pessoa do Rei e o ladrão escolhido pela multidão do povo.

Contextualizando

No texto lido, temos Jesus sendo apresentado a Pilatos, pelo Sinédrio, no intuito de que Ele fosse morto pelos romanos (v.31). Nesse momento Pilatos o indaga, por duas vezes, acerca de dEle ser o “Rei dos Judeus” (v.33 e v.37), o que fica melhor explicado se lermos Lucas 23.2, onde os acusadores
diziam te-lo achado “pervertendo a nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei”. Esse foi o subterfúgio usado pelos líderes judaicos para promoverem interesse ao governador romano, no caso de Jesus Cristo. No entanto, sua preocupação era muito mais de cunho teológico/religioso judaico, do que político romano.

No verso 33, Jesus questiona a Pilatos de onde teria vindo o entendimento de que Ele fosse “Rei dos Judeus”. E no verso 37, Jesus é mais enfático em Sua fala: “todo aquele que é da (ou ‘ama a’) verdade ouve a minha voz”; mostrando que a falta de um entendimento claro de Pilatos apontava para o fato dele não ser amante da verdade.

Nesse contexto, cabem algumas reflexões sobre o que lemos. A proposta é aprofundarmos-nos no texto bíblico, visando nosso aprendizado e um viver cristão mais bíblico.

Tu dizes que sou rei (v.37) - Alguns comentaristas trazem essa expressão traduzida por “Rei é uma palavra tua, não minha”. A ideia aqui é realmente afirmativa. Como diz D.H. Carson sobre esse texto:

Em outras palavras, Jesus foi tão longe na auto-revelação que ele deve confirmar abertamente seu próprio status real [...]Depois de descrever seu reino com uma forma negativa (v. 36), ele agora define sua missão real positivamente. Ele nasceu para ser um rei, para isso ele veio ao mundo: no contexto do quarto evangelho, esse par de expressões refere-se à encarnação, sua mudança da glória que compartilhava com o Pai em sua presença (17.5) para a sua manifestação nesse mundo arruinado para manifestar algo daquela glória (1.14). [1]

Sendo assim, fica claro para nós que Jesus veio testemunhar da verdade, sendo Ele mesmo a expressão real da verdade (João 14.6), de forma que aqueles que têm relação com a verdade, compreendem quem Ele de fato é (João 10.2, 3 - “Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas [...] e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas”).

O que aprendemos aqui?

1. Precisamos nos preocupar com a relação que estamos buscando ter com Cristo. Nós o chamamos de Rei e Senhor (e até cantamos sobre isso), e Ele nos responde: Vocês dizem que sou rei! Será que de fato nos relacionamos com Jesus à partir dessa dinâmica: de rei para súditos; de senhor para servos?

2. João mesmo diz, como lemos, que as ovelhas ouvem a voz do pastor (Jesus) e a reconhecem. Você tem ouvido a voz de Jesus? Você sabia que a voz de Cristo, nesse tempo, tem sido manifesta pelo Espírito Santo? “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (João 14:16). Você tem se preocupado em ouvir mais o Espírito Santo, a fim de iluminar sua mente e coração com a verdade?

Que é a verdade? (v.38) - Essa pergunta cínica de Pilatos parece retratar o mesmo cinismo de todos os homens, quando se encontram perante a verdade do evangelho. Sobre esse trecho, Carson escreve:

Pilatos abruptamente termina o interrogatório com uma curta e cínica pergunta: Que é a verdade? - e com a mesma rispidez dá as costas, seja porque ele está convencido de que não existe uma resposta, seja porque ele não quer ouvi-la, o que é mais provável. Ele prova, assim, que não está entre aqueles a quem o Pai deu a seu Filho (João 17.9). [2]

O comportamento mais comum das pessoas é questionar a existência da verdade. Nesse tempo relativista, o homem tenta fugir da questão afirmando que tudo é relativo, e que não uma verdade absoluta. Cristo finca o machado à raiz quando afirma “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Não há relativismos aqui. Ou você se encontra com a verdade, ou tudo o que você faz é parte de uma grande mentira.

O que aprendemos aqui?

1. Temos o desafio em nossas vidas, como servos da verdade, de buscarmos vive-la em nossas vidas. Não uma vida de meias verdades, mas uma vida íntegra e plena do evangelho. Muitas pessoas estão se enganando, vivendo o evangelho de qualquer maneira, achando que isso basta. Lembre-se: Todo aquele que ama a verdade, ouve a minha voz (v.37).

Quereis, pois, que vos solte o Rei dos Judeus? [...] Este não, mas Barrabás (v.39,40) - Não é a primeira vez, e não será a última, que as pessoas rejeitam o Rei verdadeiro e preferem um ladrão e assassino. João nos dá conta que “os homens amaram mais as trevas do que a luz...porque suas obras eram más” (João 3.19). Foi assim no Éden, foi assim com Cristo. É assim hoje também.

A verdade não confunde. Uma verdade falsa, ou distorcida (as famosas meias verdades), conduz ao engano. O povo foi insuflado por uma falsa verdade, a partir de uma ideia equivocada de Messias. Por esse motivo pediram que soltassem Barrabás, não reconhecendo que o verdadeiro Rei estava prestes a ser crucificado.

O que aprendemos aqui?

1. Quantas vezes deixamos de clamar pelo Rei verdadeiro, para nos escorarmos em recursos próprios? Quantas vezes deixamos de buscar verdadeiramente a Cristo, para nos atermos às nossas ilusões e pretensões particulares de uma vida plena e abundante?

Concluindo

Diante da verdade do evangelho, somos incentivados pelo próprio Cristo a vivermos como súditos do Rei, servos do Senhor a quem servimos. Nessa caminhada, não lugar para meias verdades em nossa vida, ou obscuridades sejam elas quais forem.

Por isso querido leitor, se confessares Cristo como teu Senhor e Rei, viva para Ele tão somente, de todo o teu coração, tua alma e entendimento.

Deus abençoe a sua vida!

Sermão ministrado à Igreja Batista Central de Campinho, em nossa live de quarta-feira, no dia 08/04/2020.

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Referências:
[1] O Comentário de João, D.A. Carson, Shedd Publicações Ltda, página 596.
[2] O Comentário de João, D.A. Carson, Shedd Publicações Ltda, página 596.

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